Todos se lembram ou pelo menos já ouviram falar do que foi a crise de 2008, considerada até então a maior crise financeira global desde a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, que ficou escancarada após a falência do banco de investimentos norte americano, Lehman Brothers. Atualmente, há um pequeno consenso de que o mercado já vinha dando sinais de declínio bem antes de 2008, mas que o mundo só percebeu o tamanho do problema após um dos maiores bancos de investimento dos Estados Unidos falir.

Hoje, o mundo passa por um outro momento caótico, que desta vez não diz respeito apenas à economia, mas principalmente, à saúde mundial. Com a pandemia do novo coronavírus afetando todos os cantos do planeta, os mais diversos âmbitos da sociedade sofrem com suas consequências, e a principal delas está, com certeza, ligada à economia.

Em contato com a reportagem do Viçosa em Dia, Raul Guarini, mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas e doutorando em Finanças na Northwestern University, em Evanston – Illinois, nos Estados Unidos, afirmou que os impactos do COVID-19 na economia podem ser maiores do que os causados pela crise de 2008. “O impacto é forte e generalizado. O consenso entre os economistas é que estamos frente a frente a uma recessão pelo menos do nível do que ocorreu em 2008.”

Raul Guarini.
Foto: Acervo pessoal

Segundo ele, a diferença é que em 2008 o Brasil não foi tão afetado pela crise, muito em função da regulação do sistema financeiro brasileiro. No entanto, desta vez, infelizmente, vai ser pior para o Brasil, já que a natureza desta crise é fundamentalmente diferente do que se observou em 2008.

A queda na atividade econômica será tão maior quanto mais tempo durar a quarentena e as pessoas não puderem voltar à sua rotina normal. Outro fator que pode potencializar o cenário de recessão é permitir que as empresas enfrentem a crise sozinhas. Isto só pode gerar mais desemprego e ineficiência na distribuição dos recursos produtivos do país. Garantir que o crédito continue fluindo na economia e que as empresas continuem tendo alguma margem de manobra é essencial para suavizar os efeitos do COVID-19. As decisões de hoje do Banco Central brasileiro com respeito à liberação de liquidez na economia são corretas e vão exatamente neste sentido.

Afirmou Raul

Diferentemente de 2008, quando a crise econômica mundial foi gerada peço negligenciamento financeiro norte-americano, desta vez a crise não é, a princípio, um choque de crédito e sim um verdadeiro choque agregado: atinge tanto o lado da demanda quanto o lado da oferta. Além disso, em 2008 não havia restrições ao trabalho como hoje. “Ainda é impossível dizer quanto tempo a quarentena nas principais economias do mundo vai durar, mas sabemos que quanto menos tempo, melhor.

Ainda de acordo com o economista, as soluções usadas em 2008 para driblar a crise não terão o mesmo efeito desta vez e, de fato, agora não temos mais apenas uma “marolinha”, como anos atrás, e sim um tsunami.

Reduzir a taxa de juros por parte dos bancos centrais, por exemplo, pode facilitar linhas de crédito mas não fará o trabalhador chinês em
Shenzen produzir o insumo necessário ao trabalhador brasileiro que precisa montar um produto eletrônico em Manaus. Também não fará os restaurantes de São Paulo aumentarem seu movimento e nem trará mais pedidos para a indústria no Sul. A política fiscal expansionista
parece mais promissora neste ambiente, em especial com os juros no mundo todo em patamares baixos. Ocorre que, ao contrário de 2008, o Brasil não apresenta espaço fiscal para saídas mirabolantes. E a janela para reformas este ano está basicamente fechada. Desta vez há realmente uma tsunami no horizonte.

Completou Raul